Loading...

Virar o mercado editorial de cabeça para cima

Em seu artigo, Paulo Verano fala sobre o trabalho das editoras independentes e da importância de se elogiar o que merece ser elogiado

Comento às vezes com amigos próximos o que acho dos textos de Caetano Veloso: num primeiro momento, têm um objeto em específico — um homenageado, por exemplo —, mas na realidade têm sempre a si mesmo como objeto de estudo. O artista baiano, que para mim escreve maravilhosamente, parte sempre do outro para reexaminar-se.

Achei isso sempre estranho — ou esquisito, ou interessante, essas palavras ambíguas e por isso ótimas de usar —, até que chegasse o dia em que conheci o livro Rosa, de Odilon Moraes, publicado pela Edições Olho de Vidro, uma jovem editora de Curitiba. O livro é um álbum ilustrado realizado com o primor de sempre pelo artista Odilon Moraes — que, quem conhece um pouco o universo desses livros ilustrados, sabe ser um dos nossos melhores —, e a Rosa do título é na verdade Rosa, João Guimarães Rosa. (Volta Caetano Veloso e sua Língua: “Gosto do Pessoa na pessoa. Da rosa no Rosa / E sei que a poesia está para a prosa/ Assim como o amor está para a amizade”.)

Não é o caso de falar do livro. Compre-o. Mas de amizade.

E é o caso de falar de si mesmo.

Foi aí que entendi Caetano Veloso. Quando vi a jovem editora Olho de Vidro, do editor Marcelo Del’Anhol, pensei na jovem editora que abri com minha amiga Angela Mendes, a Edições Barbatana.

E, quando elogiei publicamente o livro Rosa, de Odilon Moraes, primeiro num comentário no perfil da Olho de Vidro e depois num post mais longo no perfil da Edições Barbatana — o que por si pode soar esquisito: uma “concorrente” elogiando outra “concorrente”, ainda mais com a qual não se tem nenhum tipo de contato —, imediatamente me lembrei dos nossos próprios esforços e da confiança depositada, em nosso caso, por Cristina Porto e Rosana Rios, duas autoras renomadas que, após terem publicado mais de uma centena de livros, embarcaram conosco.

Está de parabéns a Edições Olho de Vidro pelo novo livro lindo de Odilon Moraes.

Para nós, da Edições Barbatana, é uma alegria ter colegas ajudando a virar o mercado editorial de cabeça para cima. É muito bom ver autores consagrados apostando junto com jovens editoras. Foi assim conosco, com Cristina Porto e Rosana Rios. Acreditamos que será cada vez mais assim.

Se os desafios são muitos, as conquistas também serão.

Fazia exatamente o que achava que Caetano fazia. Elogiava xis ou ípsilon justamente para aproximar os eixos xis e ípsilon de nossa Barbatana.

Na realidade, daí entendi, não falava da Barbatana, mas de uma cena maior que só poderá se fortalecer se nós, pequenos-grandes editores, nos organizarmos numa rede inteligente e valorizarmos publicamente o que é bom. Isso envolve, ao mesmo tempo, pôr de lado noções antigas — mas extremamente atuais no chamado “mercado”, como “concorrência” e um certo esnobismo — e passarmos francamente a nos conhecer.

Entender os esforços e os trabalhos uns dos outros. Dialogar. Comentar. Publicizar. Elogiar. Não o elogio vazio e abobalhado, mas o esforço de solidificação de algo maior e mais importante, que é o que fazemos e sabemos fazer: os bons livros, que materializam as boas histórias.

Tenho muitos amigos no mercado editorial que passam, neste presente momento, pela difícil batalha de se reinventar, ao mesmo tempo em que assistimos a um mercado editorial — o dito industrial ou competitivo — cada vez menos operante.

Ao mesmo tempo, também vejo muitos desses amigos abrindo portas. A Lizandra Magon de Almeida abriu com o Murilo Martins uma Porta Amarela em Paraty. Foi lindo fazer parte disso com outros vários amigos, como os editores da Coticoá e da Quelônio, entre tantos outros que se movem tão bem que nem seria bom escolher um ou outro.

A editora Lizandra Magon de Almeida, aliás, que se juntou com a escritora Jarid Arraes para dela, ou com ela, lançar COM ESTARDALHAÇO o livro Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis. E com quem não vejo a hora de embarcar em algo conjunto.

Muitas outras editoras pequenas brilham e muitas outras começarão a brilhar, mais cedo ou mais tarde. É esse movimento que fará com que a cena enrijecida se renove. Volto a ter um arroubo de leãozinho ao me autocitar. A Barbatana, ao definir-se, constrói para si, como parte da definição de seu nome, a seguinte imagem da qual deseja mais e mais fazer parte:

É famosa a imagem do grande cardume de peixes pequenos que forma o vulto de um grande peixe. O mercado editorial independente vive um momento assim: caudaloso e cheio de vivacidade.

É essa porção de peixinhos, que inclui a Olho de Vidro, a Pólen Livros, a Jujuba, a Ozé, a Lote 42, a Barbatana (a modéstia às favas), enfim, é todo esse ecossistema inteligente que saberá se organizar cada vez melhor em rede — uma rede que não aprisiona, mas liberta, e que se articula com outros grandes batalhadores, como a Livraria NoveSete, a Livraria Zaccara, a Livraria Casa de Livros, a Banca Tatuí e outros vários livreiros importantes para o fortalecimento dessa mesma cena — para virar o mercado editorial de cabeça para cima.

Parece incoerente virar o mercado editorial de cabeça para cima? Pois não é.

Fonte: PublishNews

Virar o mercado editorial de cabeça para cima - Abresc |