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Thalita Rebouças sobre o sucesso de seu trabalho: “A adolescente escreve o livro, a jornalista de 46 anos edita”

Completando 20 anos de carreira, a escritora e roteirista celebra a conexão com o público adolescente e revela os desafios de uma mulher que foge da zona de conforto.

Apresente à escritora Thalita Rebouças uma zona de conforto e ela dirá: “Fala sério”.

Publicada no ano em que completa duas décadas de carreira, a carioca de fala solta deu mais uma guinada na carreira. Se antes seus best-sellers adolescentes, como Fala Sério, Mãe e Tudo por Um Popstar, eram livros de sucesso adaptados em filmes que lotavam cinemas, na reclusão da pandemia a lógica se inverteu. Acaba de lançar Pai em Dobro, escrito inicialmente na forma de roteiro para a Netflix.

Editado pela Rocco e com 256 páginas, Pai em Dobro conta a história de Vicenza (interpretada por Maisa no filme), uma jovem de 18 anos que passou a vida em uma vila ecológica – sem sinal de celular, para um choque bem-vindo a sua sempre conectada geração de leitores. E foram as descobertas e aventuras da menina que fizeram Thalita enfrentar o distanciamento social, devolvendo à ela duas de suas mais fortes características: a disciplina e o compromisso com prazos.

Em uma conversa por telefone com a Revista Donna para falar sobre suas duas décadas como “chefe de si mesma”, Thalita abriu o jogo sobre como é ser vista como a melhor amiga dos adolescentes e, ao mesmo tempo, levar curtindo o momento de uma mulher adulta e realizada:

– É aquilo que sempre falo: a adolescente escreve o livro, a jornalista de 46 anos edita.

A seguir, a escritora revela que não faz coleção de bichos de pelúcia, que percebe as mesmas angústias dos adolescentes do início dos anos 2000 nos jovens que acompanha hoje e que nada mudou em relação às cobranças com autoimagem das meninas e ao fato de ter ou não filhos.

Com a palavra, a mulher de mais de 2 milhões de livros vendidos.

É nas turnês e nas maratonas de autógrafo que você diz que mais sente que está trabalhando. Esse ano será diferente. Como será o trabalho de divulgação?
Será a parte mais difícil, com certeza. Amo aquela loucura de aeroporto, de hotel. Fico exausta, mas é aquele cansaço bom. Em Porto Alegre já fui à Feira do Livro, era uma das experiências mais incríveis do ano. Mas vou participar de feiras online e tenho lives programadas. Sei que as pessoas estão de saco cheio de lives (risos), mas vamos trabalhar da forma possível.

Você fala que nesses 20 anos percebe os adolescentes com as mesmas angústias. Como vê a questão das redes sociais na cabeça deles? A lente de aumento para os defeitos não cresceu ainda mais?
Essa é a palavra: lente de aumento. Tem muito sofrimento, sim. Claro que as redes sociais estão aí para alimentar demais isso, mas são questões que já estavam lá dentro, não foram plantadas pela internet. Acho que as angústias são as mesmas de 20 anos atrás. Eu mesma implicava muito com partes do meu corpo que hoje olho e penso: “Gente, como era bonita”. Mas é uma fase de muita comparação, em que a opinião do outro conta muito. Óbvio que estar sempre com um celular na mão e com acesso a imagens o tempo todo vai fazer aumentar. Mas não vejo diferença no tipo de questões, sabe?

Você percebe essa geração de meninas mais unida e com menos rivalidade?
Acho que ainda tem muito o que caminhar. Pelo que tenho visto, pelo que convivo, pelo que escuto. Claro que se fala muito disso, mas ainda estamos naquela fase de entender o momento. Tem muita onda de internet, é bonito falar em sororidade, em empatia. Mas o caminho ainda é longo, vejo muito mais no discurso.

Como era a Thalita adolescente e a relação com a sua mãe? Tinha muito “fala sério”?
Não era nada rebelde. Mas como falei, com aquelas mesmas inseguranças. Colocava defeito na minha perna, era um horror. Acho que nunca fui um problema para a minha mãe e, nas minhas histórias, não uso a nossa relação, não. Procuro sempre prestar muita atenção na relação de mães e filhas de fora. Adoro cuidar as reações nas filas de autógrafos dos meus livros. É sempre a mãe desesperada para não perder a foto no celular, senão a filha já sai “Poxa, mãe” (risos).

Você sempre fala que, por não ter filhos, é vista mais como a amiga mais velha. Em que medida as pessoas lhe cobram isso? No início foi mais do que agora?
A cobrança é exatamente a mesma! Não mudou nada. Ainda vejo muita reportagem em que o fato de não ser mãe está na manchete. Sabe aquela frase: “Thalita Rebouças, que não tem filhos, lança mais um livro para adolescentes”? Uma vez me deram a dica: “Diz que não pode ter”. Aí as pessoas ficam constrangidas e param de perguntar (risos). Foi uma decisão de entender que fazer filho é fácil, criar é difícil, e que talvez eu não tenha vocação. (Não quero) Colocar mais uma pessoa no mundo e não dar a ela a devida atenção.

Você tem algum tipo de ajuda de profissionais para ter esse diálogo certeiro com os adolescentes?
Sim, falo muito sobre isso com minha terapeuta, que também trabalha com os adolescentes e estuda muito.

Mas você não tinha recebido alta da terapia?
Tinha, da minha ex-terapeuta doida (risos). Brincadeira, amo ela demais. Mas estou fazendo de novo, fiquei uns quatro anos sem e precisei voltar. Acho que todo mundo precisa sempre, né?

O lado empreendedor falou alto há 20 anos, quando deixou emprego fixo para viver como escritora?
Com certeza. Sou ótima chefe de mim mesma (risos). Acho que dos tempos em que era jornalista, trago um compromisso muito grande com prazos – e, como minha chefe, ia me amar muito por isso. Coloco um cronograma na minha cabeça e sempre cumpro. Em seis meses já tem projeto novo, sem atraso. E sempre tive o pensamento de investimento, nunca de gasto. Já comprei muitos sacos de pirulito em troca de dois minutos de atenção nas livrarias, e as pessoas perguntado: ‘Vai gastar com pirulito, Thalita?”. Mas não via como gasto, via como investimento.

Como foi a virada para um podcast completamente diferente, que fala de separação. As pessoas estranharam no início você falando de assuntos da vida adulta?
Queria muito fazer essa virada, falar ao mesmo tempo sobre temas adultos. Aí surgiu a ideia do podcast Unidas pela Separação com a Roberta Senna. Falar com essas mulheres que dói, mas a gente ganha uma nova rede de apoio quando se separa, a gente ganha amigas. A gente tá sofrendo um luto e parece que vai ficar triste para sempre, mas tem sempre uma mulher que já passou por isso e estende a mão para você.

As pessoas lhe veem com a imagem de adolescente, tanto que você brinca que é “superadulta”. O que a Thalita mulher gosta de consumir de informação, de arte?
Pois então, sempre preciso explicar que não tenho coleção de bichinho de pelúcia (risos). Tinha que quase carregar uma mala extra nas viagens! Até que um dia consegui explicar, mas era muito fofo ver a fila de autógrafos com os presentes. Gente, sou uma mulher de 46 anos. Eu amo Chico Buarque, tomar um vinho com meus amigos, sair para comer, malhar. Não agora, claro, mas essa é a Thalita. É aquilo que sempre falo: a adolescente escreve o livro, a jornalista de 46 anos edita. E tento, dentro do possível, passar referências legais nos textos, seja de música ou de autores. E sou preguiçosa em redes sociais, não tenho TikTok nem paciência com aquelas danças.

Já vi em entrevistas você falar que quando está triste vai escrever. Em um ano complicado rendeu muito o trabalho?
Pelo contrário. O início foi muito difícil. Tinha uma raiva daquelas pessoas produtivas na pandemia. Não conseguia trabalhar, não conseguia ler, não fiz nenhum curso. Teve amigo que veio pro Rio de Janeiro preocupado comigo sozinha aqui, viu que tinha “dado ruim”. Aí comecei a falar com outras pessoas que estavam na mesma situação que e eu fui melhorando. Depois coloquei prazos, e o Pai em Dobro me trouxe a vida de volta.

Você diz que se joga! Mandou e-mail pro Boninho se oferecendo para o The Voice Kids, compôs músicas para alguns dos filmes. Tem algum lado da Thalita que podemos descobrir nos próximos projetos?
Eu sou muito metida! Já atuei, já escrevi música, vou indo. Mas acho que agora tenho ficado mais nas descobertas do audiovisual mesmo, estou tentando ganhar segurança nessa área.

Falando em segurança, quando você falou que ia deixar o emprego em uma assessoria de imprensa para virar escritora sua família se preocupou achando que você ia morrer de fome.
Pois é. Mas entendo eles, claro. Filha única, neta única. Queriam que eu fizesse concurso público, tudo bonitinho. Mas acho que deu um pouco certo, né? (risos).

Fonte: GaúchaZH

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