Tatiana Salem Levy: Um pouco de saúde em tempos doentes - ABRESC

Tatiana Salem Levy: Um pouco de saúde em tempos doentes

Vou guardar para sempre na memória o dia 20 de junho de 2020. O dia que fui ao teatro pela primeira vez após o início a pandemia de covid-19. O presidente da República de Portugal estava sentado atrás de mim, na diagonal, porque agora os lugares são intercalados. Na outra diagonal, estava a ministra da Cultura. Só de me saber num país onde existe ministra da Cultura e o presidente vai ao teatro já senti um alento no coração. O resto seria lucro. E o lucro foi imenso. Foi a peça “By Heart”, do dramaturgo e ator Tiago Rodrigues.

No clima de comoção que tomava conta de todos nós, Tiago chamou para o palco dez espectadores. Eles deveriam aprender de cor um soneto de Shakespeare, e a peça só acabaria quando o poema fosse recitado por eles.

Tudo começa com uma das visitas de Tiago à sua avó, Cândida, na aldeia onde ela morava. No regresso, ele traz os livros que havia lhe emprestado. As caixas com os livros o fazem se lembrar de uma entrevista de George Steiner para a televisão holandesa. Ele procura o programa na net e fica obcecado: igual às crianças que querem ouvir as mesmas histórias todas as noites, Tiago assiste à entrevista sem parar, até aprendê-la de cor.

Como em todo bom texto, uma coisa leva à outra, numa espiral de busca e sentido: a sua obsessão por Steiner nos aponta para a reflexão sobre a memória, que por sua vez nos leva a histórias de pessoas que decoraram textos como forma de amor e resistência, mas também ao desejo da avó que, a caminho da cegueira, decidiu decorar um único livro, e assim chegamos ao soneto de Shakespeare e aos espectadores que devem recitá-lo. A maior homenagem que alguém pode fazer a um poema, segundo Steiner, é aprendê-lo de cor, “by heart”, “par coeur”. Não com a cabeça, mas de cor, de coração. Se uma pessoa decora um poema, passa-o adiante, salva a sua memória. O texto no corpo e o corpo no texto.

Steiner é uma dessas figuras que parece trazer uma biblioteca dentro de si. Na entrevista que Tiago decorou, ele conta que 1937 foi um dos piores anos na antiga União Soviética: “As pessoas desapareciam como moscas, todos os dias.” Durante o Congresso Soviético dos Escritores, Boris Pasternak subiu ao palco para falar e pronunciou apenas um número: 30. O número do soneto de Shakespeare sobre a memória, que Pasternak havia traduzido para o russo e que as duas mil pessoas da plateia recitaram. Com o coro que de repente se formou, Pasternak “dizia tudo. Dizia: não nos podem tocar; não podem destruir Shakespeare; não podem destruir a língua russa; não podem destruir o fato de sabermos de cor o que Pasternak nos deu”, diz Tiago no palco, emocionado – porque naquele 20 de junho a ideia de que o texto persiste e a memória ultrapassa os desastres ganhava um significado extra. Sentir que o teatro ainda existia e nossos corpos estavam presentes, mesmo que com máscaras, era sentir que havíamos sobrevivido.

A memória é a forma amorosa da resistência. Trazer no coração um texto, um poema, é dizer para o mundo que, enquanto estivermos aqui, o que veio antes de nós também estará. Steiner afirma: “Penso que somos o que recordamos. E eles não podem tirar-nos o que está em nós.” E prossegue contando que, no campo de concentração de Birkenau, havia um bibliotecário, com uma daquelas impressionantes memórias da Torá e do Talmude, que dizia: “Se precisarem ler alguma coisa, venham lê-la em mim. Abram o livro de mim próprio.” Ele dizia isso a pessoas que tinham perdido a casa e a família. Consolava-as dizendo que estava ali e, com ele, os livros que sabia de cor e agora lhes oferecia.

Numa coincidência inesperada, Tiago de repente fala de Nadejda Mandelstam e de seu marido, Ossip Mandelstam, poeta russo perseguido, preso, torturado e morto pelo governo soviético, que teve seus livros e poemas confiscados. Digo coincidência porque eu tinha acabado de começar a ler o romance “O que Ela Sussurra” (Companhia das Letras). Nele, Noemi Jaffe conta justamente a história de Nadejda, que decorou todos os poemas de Ossip (mais de 300), para que um dia pudesse transcrevê-los e publicá-los. A voz que narra é a mesma que sussurra os poemas noite após noite enquanto costura numa fábrica, a voz dessa mulher que cria uma rede de memória, “como se pelo sussurro todas as mulheres da Rússia se comunicassem numa sintonia desconhecida”.

O próprio romance é um sussurro, se pensarmos o sussurro também como arma: “Às vezes o sussurro pode ser mais alto que o grito, uma arma às avessas que não muda nada mas faz que nos sintamos um pouco mais fortes, o que não é tão pouco assim”, diz a Nadejda de Noemi. Em tempos e lugares doentes e doentios, como a Rússia dos anos 30, ou o Brasil de agora, sussurrar poemas de livros queimados ou proibidos pode nos garantir um pouco de saúde. Aliás, as semelhanças entre os tempos e os lugares não passam despercebidas no romance: tanto lá, quanto cá, os governos destroem a cultura e a memória, menosprezam o saber. Alunos são instruídos a espionar os professores e vice-versa. “O fanatismo”, diz a narradora de “O que ela sussurra”, “faz a vergonha desaparecer e agora as pessoas não tinham mais medo de serem hostis e agressivas.”

Contra a hostilidade e a agressão, a memória e o amor. Ou, o sussurro, um jeito de dizer: não vamos esquecer; não vamos nos calar; não vamos morrer. Afinal, é isso o que querem os totalitarismos, fazer desaparecer do mapa os que dissonam, os que amam. Pelos sussurros de Nadejda, percorremos o horror daquela Rússia, a perseguição da polícia, a arbitrariedade das prisões e dos algozes, a tortura, os campos de trabalhos forçados, a censura, o pensamento único. Num mundo que assolapa, endurece, o sussurro é uma fresta por onde entra o ar fresco. Se ninguém podia guardar papéis com os poemas de Ossip Mandelstam, sob pena de ser exilado ou preso, então Nadejda os sopra todos os dias.

E aqui me lembro de outra peça de Tiago Rodrigues, “Sopro”, que traz para o palco Cristina Vidal, ponto do teatro nacional Dona Maria há 25 anos. Seu trabalho é soprar para os atores o texto da peça, não deixar que as palavras caiam no esquecimento. Depois de soprar durante 25 anos, Cristina se torna, ela própria, um livro de memórias. Seu corpo traz textos e histórias que nenhum outro traz. Há delicadeza nas palavras que voam. E há força. “As coisas que merecem ser lembradas, que precisam ser lembradas, só se guardam sussurrando,” diz Nadejda.

Sussurrar é “segurar o tempo”, “o fluxo das coisas”. É, por um instante, ser o ator do impossível. “Quero ser a sopradora contínua de uma obra tua”, diz Nadejda, o que é o mesmo que dizer, como destaca a frase de apresentação de “Sopro”: “Sobretudo, não morrer.” Interromper a passagem das horas, resistir, misturando os tempos: “Os poemas que memorizo mas que parecem também me memorizar, como se eu só pudesse existir através deles, me levam para um passado que fica no futuro.” Se Nadejda conseguir decorar os poemas do marido por 25 anos – e ela consegue – então eles estarão salvos. Se os dez espectadores em cena no palco do Dona Maria memorizarem o soneto 30 de Shakespeare, então a peça já terá valido a pena. “Esta é”, conclui Steiner, “a forma mais profunda de publicação. A publicação da alma humana. Assim que dez pessoas sabem um poema de cor, não há nada que o KGB, a CIA ou a Gestapo possam fazer. Esse poema vai sobreviver.”

Tiago Rodrigues cita o obituário de Nadejda escrito por Joseph Brodsky para um jornal americano, no qual se lê: “Se há algum substituto do amor, esse substituto é a memória. Aprender de cor é restaurar a intimidade.” Se o amor é uma forma de resistência, aprender livros de cor também o é. Livros que Nadejda sussurra para um dia poder gritar: “Tomara que eu possa morrer gritando e não quieta, na cama”. Afinal, “mesmo sendo uma coisa selvagem, acho que é algo que resta da dignidade humana – gritar.”

Pois é, o mundo do jeito que está, só gritando muito. O mundo do jeito que está, só falando baixo, bem baixinho, um sussurro.

Texto de Tatiana Salem Levy

Fonte: Valor Econômico