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Sonhos, pesadelos e saudades

Há duas décadas escrevi esse sonho, a pedido de alguém que há muito partiu, e para sempre nos fará falta. Assim, presto uma homenagem às famílias das mais de 500 mil vítimas da COVID-19 no Brasil, que dolorosamente viveram o pesadelo de perder seus queridos

“Uma vez eu tive um sonho, estava em uma fazenda, com uma sede antiga e malcuidada, desgastada pelo tempo. Naquele lugar eu podia ver os traços deixados pelos anos, que me revelavam, de modo sutil, o que poderia ter acontecido naquelas terras.

A fachada revelava uma arquitetura peculiar: janelas largas, varanda ampla, restos do que deveria ter sido um giral. Na cozinha, um velho fogão de lenha indicava o quanto fora produzido naquele lugar, e sua imagem me fazia imaginar de quantas festas não deveria ter participado aquele braseiro, agora em pedaços.

Ao entrar naquela casa, velha e abandonada, cheia de poeira, um turbilhão de sentimentos tomou conta de mim, e acordei do transe com um susto! Uma voz forte e determinada me disse: “Venha minha filha. Irei lhe mostrar como era esta casa quando ainda tinha vida.”

A voz era de Giuseppe, antepassado por mim desconhecido, exceto pelas magistrais histórias que ouvira de minha avó na infância, narrativas sempre carregadas de emoção e brilho no olhar, voz embargada e sorrisos carinhosos, que sempre me faziam pensar naquele personagem e em tudo que vivera.

Agora, a propriedade já estava transfigurada. As paredes eram bem pintadas, muito limpas. As janelas, de um azul indescritível. Todo aquele ambiente, seus sons e tons, transmitia-me uma paz, um conforto jamais sentido. Ao voltar com Giuseppe para a varanda, qual não foi a minha surpresa ao ver o giral, antes parcialmente destruído, todo de pé, dando suporte à mais bonita das trepadeiras. Ante minha surpresa, Giuseppe apenas me respondeu:

— Isso acontecia quando esta casa tinha vida.

A singeleza do comentário me deixou perturbada, de modo que não mais poderia me esquecer dele nos momentos que se seguiram. Fomos conhecer a cozinha e encontrei duas moças muito bonitas e alegres, e o fogão que, há alguns instantes estava aos pedaços, agora estava aceso e, com chamas bem vermelhas e um calor capaz de proporcionar segurança em dias frios, emanava deliciosos aromas.

Mais uma vez, diante de meu semblante surpreso, meu querido guia apenas me disse:

— Isso acontecia quando esta casa tinha vida.

Na sala não estavam mais a sujeira ou os pedaços de reboco, ou as teias de aranha nos cantos mais altos, e sim um ambiente muito bem arrumado, com imponentes móveis de madeira. Ali estavam duas belas garotas: uma aparentava ter cerca de 14 anos, à qual não prestei muita atenção, desviada por Giuseppe ao me dizer:

— Está vendo aquela linda garota?

A menina, vestida com um vestido areia, de pequenos e delicados detalhes azuis, preso por uma bela fita azul atada à sua cintura – me dizia ele, apontando para a garota mais nova, com cerca de 12 anos – Esta é a sua avó!

Então, Giuseppe me abraçou e docemente me disse: — Sinta como era esta casa quando ainda tinha vida.

Ao sentir o calor de seu corpo, acordei, e tive a certeza de ter estado junto a um anjo chamado Giuseppe.”

Há duas décadas escrevi esse sonho, a pedido de alguém que há muito partiu, e para sempre nos fará falta. Assim, presto uma homenagem às famílias das mais de 500 mil vítimas da COVID-19 no Brasil, que dolorosamente viveram o pesadelo de perder seus queridos, restando-lhes saudades e ausências que jamais poderão ser compensadas.

Fonte: Jornal de Região