Parabéns, Luiza - ABRESC

Parabéns, Luiza

Nenhum outro povo sofreu o processo de desumanização que o povo negro sofre.

No último final de semana, o Magazine Luiza, eleita recentemente como a empresa mais inovadora do país, divulgou que em seu próximo programa de trainee aceitará somente candidatos negros. Pessoalmente, manifesto meus aplausos à empresa, e por isso procurarei elucidar pontos importantes a seguir, sobretudo para revelar o quão desinformado e mal-intencionado é o indivíduo que apoia a tag #MagazineLuizaRacista, uma das vedetes dos últimos dias nos “tribunais da internet”.

Em primeiro lugar, acusar de racista uma iniciativa que gera oportunidade a um grupo – enorme – constantemente vilipendiado, não é coerente. Com essa ação, o que a empresa faz é reafirmar que em todas as raças existem talentos que podem – e devem – ser revelados e aproveitados pelo mercado, mas que muitas vezes, não chegam aos canais que levam a esses empregos.

O discurso que desmerece iniciativas que geram oportunidades às minorias é mesquinho e quase sempre temperado com uma grande dose de oportunismo.

Para quem acha que os negros “reclamam demais”, talvez um breve levantamento de dados estatísticos ajude a entender a situação: de acordo com estudo emitido em 2019 pela ONG britânica Oxfam, dedicada a combater a pobreza e promover a justiça social em todo o mundo, a projeção era de que apenas em 2089 o Brasil alcançaria a igualdade salarial entre negros e brancos, isso, antes da Pandemia do Novo Coronavírus.

Duas outras estatísticas estarrecedoras envolvem formas de violência: enquanto o feminicídio de mulheres brancas caiu 10% entre os anos de 2003 e 2013, as ocorrências contra mulheres negras aumentaram 54% – a fonte é o Mapa da Violência 2015, da Faculdade Latino-Americana de Estudos Sociais; além disso, de acordo com o Atlas da Violência 2017, produzido em conjunto pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a população negra corresponde à maioria (78,9%) dos 10% dos indivíduos com mais chances de serem vítimas de homicídios. Impossível não sentir a angústia que esse dado gera aos pais e mães negros que, costumeiramente, não sabem se seus filhos voltarão para casa – e devemos, claro, incluir aqui, a violência policial, como se pode acompanhar nas notícias cotidianas.

De acordo com uma pesquisa realizada pela Universidade de Brasília (UnB), somente 10% dos livros brasileiros publicados entre 1965 e 2014 foram escritos por autores negros. Podemos ainda retomar a questão da subalternidade no cinema e na televisão, não apenas de maneira empírica, mas apoiado por pesquisa realizada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), que considerou as produções brasileiras que alcançaram as maiores bilheterias entre 2002 e 2014: dentre os filmes analisados, 31% tinham no elenco atores negros, quase sempre interpretando papeis associados à pobreza e/ou criminalidade.

Encerro, após tantos dados tristes, com uma ressalva: se você acha que “racismo não existe”, ou que “todos têm as mesmas oportunidades”, ou ainda que a ação do Magazine Luiza é “racismo reverso”, talvez fosse importante ampliar seu leque de leituras para, então, compreender, Se você pensa que o grande mal para os negros foi a escravidão e argumenta em seus círculos que muitos outros povos foram escravizados, entenda, de uma vez por todas: nenhum outro povo sofreu o processo de desumanização que o povo negro sofreu, de modo que se pudesse julgar normal o subjugo ou a extrema violência, com vidas presas a grilhões sendo ceifadas por capitães do mato.

Fonte: Diário da Região

João Paulo Vani

João Paulo Vani - ABRESC

Presidente da Academia Brasileira de Escritores. Mestre e Doutor em Teoria Literária (Unesp) e Especialista em Administração (MBA) com ênfase em Comunicação e Marketing. Coordenador, em âmbito nacional, do programa “Brazilian Studies” da University of Louisville, nos Estados Unidos. Coordenador de Pós-graduação da Anhanguera Educacional – unidade São José do Rio Preto.