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País celebra centenário do poeta João Cabral de Melo Neto

Dono de uma poesia marcada pelo rigor da linguagem e pela crítica social, o pernambucano João Cabral de Melo Neto tem seu centenário celebrado em 2020

O ano de 2020 é marcado pelo centenário daquele que é considerado o maior poeta brasileiro de todos os tempos: o pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999). Marcada pelo rigor da palavra, a poética cabralina é oportuna (e necessária) para interpretar o mundo atual de forma crítica. Aliás, linguagem e crítica social se relacionam de forma única na obra do pernambucano – um poeta cujos versos estão impregnados pelas experiências vividas não só no Brasil, mas em inúmeros países, já que ele também exerceu o cargo de diplomata.

“A poesia de João Cabral é necessária hoje, pois nos ensina a ler o mundo de modo crítico. A espessura concreta da realidade só pode ser alcançada pela arte, que a amplia e a torna presente e incômoda”, comenta a professora doutora Susanna Busato, do Ibilce/Unesp.

Segundo ela, a palavra para João Cabral é pedra fundamental da escritura, pronta a ser lapidada. “Em seu livro ‘Educação pela Pedra’ [1966], em poema de mesmo nome, o poeta revela sua preocupação formal com o fazer poético, nunca fácil, como ‘uma educação pela pedra: por lições; para aprender da pedra, frequentá-la’. Lapidar a pedra/palavra é ter a consciência da poesia como construção”, destaca. “Ao contrário de muita poesia fácil e pouco trabalhada de hoje em dia, que apenas se preocupa com o conteúdo das coisas, a poesia de João Cabral nos leva a habitar as coisas, a frequentar a pedra, suas sílabas e aprender, na sua cartilha, a dicção do mundo e a de que nos esquecemos: nossa própria humanidade”, acrescenta.

Para a professora Daniela Soares Portela – doutora em Literaturas em Língua Portuguesa e mestre em Teoria da Literatura -, o uso preciso da linguagem é o maior legado do poeta pernambucano, o que lhe rendeu a alcunha de “Poeta Engenheiro”. “A ideia de um ‘Poeta Engenheiro’ e seus derivativos, ‘Poeta Cerebral’ ou ‘Poeta Arquiteto’, é uma alusão ao extremo rigor formal do ritmo da poesia de João Cabral. Se observamos que a definição de ritmo é ‘repetição de um elemento em intervalos regulares de tempo’, temos que todo verso é uma composição musical e ao mesmo tempo matemática da linguagem. Como João Cabral elevou esse princípio técnico do uso da linguagem ao seu patamar mais eficiente, ele recebe da crítica o epíteto de ‘Poeta Engenheiro’, pois metaforicamente sua poesia apresenta a precisão técnica de uma obra de Engenharia”, pontua.

Dado o rigor e precisão dos versos, a musicalidade é algo latente na poética cabralina. Na canção “Outro Retrato”, que faz parte do disco “Estrangeiro” (1989), Caetano Veloso diz que sua música vem da “música da poesia de um poeta João que não gosta de música”, elevando o patamar dessa musicalidade encontrada nos versos do pernambucano.

Segundo Daniela, a musicalidade da obra de João Cabral é tão latente que Chico Buarque fez de “Morte e Vida Severina” um musical nos anos 1960, quando era estudante de Arquitetura em São Paulo, conquistando vários prêmios, até mesmo fora do País. “Quando Caetano [Veloso] afirma que João Cabral era resistente à musicalidade está se referindo à ideia de uma musicalidade fácil, de consumo das massas, a qual chamaríamos hoje de ‘poesia mainstream’. João Cabral não abria concessões para o público, ele não produzia uma obra de consumo inconsciente, descompromissado. Ao contrário, sua poesia é de difícil decodificação e exige um leitor que associe ritmo com sentido do texto para criar percursos interpretativos”, explica. “Mas a musicalidade é um elemento orgânico da poesia de João Cabral, fundamental para a construção do sentido”, reforça a professora, ressaltando que o poeta pernambucano nos atenta para a exatidão da linguagem empregada na nomeação de cada conceito.

Literatura X Artes Plásticas

Estudioso da poética cabralina, o professor, ensaísta, poeta e escritor Aguinaldo Gonçalves não hesita em considerar João Cabral um dos maiores poetas que o mundo já teve. “João Cabral é o poeta da concretude. Não sobra palavras em seus versos, assim como não há adjetivações gratuitas. Trata-se de um poeta conceitualíssimo”, destaca ele, que é autor do livro “Transição e Permanência”, fruto de sua dissertação de mestrado e que conquistou, em 1989, o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

Em sua publicação, Gonçalves é pioneiro em promover relações intersemióticas entre literatura e artes plásticas, estabelecendo uma ponte entre o modo como João Cabral lidava com a palavra e a obra imagética do artista espanhol Joan Miró (1893-1983).

“João Cabral teve uma formação muito rica. Desde pequeno ele foi preparado para ser um diplomata, e estudou muito o parnasianismo de Olavo Bilac em sua formação. Se vasculharmos a sua obra poética, encontraremos muito do parnasianismo e do barroco”, comenta ele, que não conheceu o poeta pernambucano pessoalmente, mas recebeu do próprio uma colaboração esclarecedora durante a feitura de “Transição e Permanência”.

Gonçalves estava no segundo ano da faculdade de Letras quando teve seu primeiro contato com a obra de João Cabral, a partir do poema “Sobre o Sentar-/Estar-no-Mundo”. E a leitura desse poema lhe causou o mesmo impacto que “Libertinagem” (1930), de Manuel Bandeira (que, aliás, era primo do pai de João Cabral), provocou no poeta pernambucano. Para ele, foi ‘Libertinagem’ que acendeu a chama da poesia em João Cabral, que, na época, não se encontrava no parnasianismo de Bilac.

Ao longo de sua trajetória, Gonçalves também publicou artigo sobre a obra de João Cabral na edição 66 da revista “World Literature Today” e foi convidado pela Academia Brasileira de Letras (ABL) para defender a poética cabralina no Prêmio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana, em 1994, quando o pernambucano foi o vencedor.

Lançamentos vão marcar 2020

Inúmeros lançamentos prometem marcar o ano em que é celebrado o centenário do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, que nasceu no dia 9 de janeiro de 1920.

O selo Alfaguara, ligado à editora Companhia das Letras, lançará, em junho, sua poesia completa, organizada pelo crítico e ensaísta Antonio Carlos Secchin. Também é previsto o lançamento de um volume de prosa, reunindo entrevistas, discursos e outros textos publicados em edições dispersas, sob organização de Sérgio Martagão.

Secchin também está envolvido em uma nova edição de seu livro “João Cabral – Uma Fala Só Lâmina”, por meio da Companhia Editora de Pernambuco (Cerpe). Ampliada, a nova edição reunirá diversos textos inéditos.

A editora Todavia lançará uma biografia escrita pelo jornalista, professor e doutor em Literatura Brasileira Ivan Marques, que pesquisa o legado do poeta pernambucano há quase dois anos.

Também haverá o lançamento de uma fotobiografia, por meio da editora Verso Brasil, a mesma que realizou, em 2018, o lançamento do livro “Joan Miró de Cabral”, com gravuras realizadas pelo artista espanhol, especialmente para poemas do pernambucano. Com edição de Valéria Lamego e curadoria de Eucanaã Ferraz, a publicação trará mais de 300 imagens relacionadas a João Cabral.

Fonte: Diário da Região

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