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Marival Correa e a química da palavra em ‘Dois Passos de Degrau’

Repórter do Diário da Região se lança como poeta com a publicação de seu primeiro livro digital pela plataforma Kindle

Para o jornalista Marival Correa – que integra a equipe do Diário da Região, em que assina, aos domingos, uma coluna de crônicas -, o poeta, assim como um cientista, tem a palavra como substância química, criando fórmulas para extrair dela as expressões do humano e sua permanente busca pelo seu melhor. “É testar a palavra ao limite, desvendando texturas e descobrindo gatilhos que despertam lembranças e inquietações naqueles que a leem. Inquietude, sim, pois a palavra poética tem esse poder e essa função de provocar, de inquietar”, reflete ele, que acaba de compartilhar com leitores e leitoras algumas das criações de seu laboratório poético por meio do livro digital “Dois Passos de Degrau”, à venda para a plataforma Kindle no site da Amazon.

Jornalista há mais de 29 anos, Correa traz um verniz literário na identidade de seus textos, reflexo da afinidade que tem com esse universo desde a infância na vizinha Urupês, sua cidade natal, onde, estimulado pelos constantes livros que ganhava das irmãs mais velhas e dos filmes que podia assistir da cabine de projeção do cinema mantido pelo pai, descobriu a palavra como ofício. No entanto, a persona literária do repórter de impresso – sempre comprometido em relatar fatos com precisão, objetividade e sem muitas adjetivações – se estabeleceu publicamente com o lançamento de “Crônicas de Marival”, coluna pela qual ele publica, aos domingos, textos que revelam a química extraída da fusão entre jornalismo e literatura.

Foi a partir da coluna, que completará um ano em julho, que Correa teve contato com aquele que seria seu maior incentivador na publicação de suas poesias, o jornalista, professor e escritor catarinense Nelson Valente. “Quando estava produzindo a crônica sobre Branca Alves de Lima [criadora da cartilha ‘Caminho Suave’], entrei em contato com ele porque vi, pela internet, um texto recente seu sobre a educadora [patronesse da educação brasileira]. Ele leu a crônica depois e me respondeu, e daí nasceu uma amizade. Compartilhei alguns de meus poemas e ele enxergou potencial, me apoiando a arregaçar as mangas e me lançar como poeta”, conta.

Desvencilhando-se das amarras do texto jornalístico, Correa, o poeta, extrai da palavra as essências que podem dar a ela inúmeros sentidos, revelando a metáfora como janela para a subjetividade. “No meu livro, há palavras que ficam evidentes. ‘Casa’ é uma delas. É uma palavra que te oferece metáforas gigantescas. Não é só um espaço físico. É a alma, o coração, é a gente mesmo…”, diz ele. “E ‘casa’ ganhou outros sentidos com a pandemia. Pode ser esse lugar de confinamento, de aprisionamento. A poesia, por meio da metáfora, abre um leque de infinitas possibilidades para o uso da palavra”, completa.

O lançamento oficial de “Dois Passos de Degrau” será neste domingo, às 15h, em live no Instagram do jornalista e poeta (@marivalsergiocorrea). Na oportunidade, ele declamará três poemas do livro ao lado da filha, Tainá.

Por enquanto, “Dois Passos de Degrau” tem versão apenas digital, mas Correa já prepara o lançamento de seu primeiro livro impresso, que celebrará o primeiro ano de sua coluna de crônicas no Diário da Região.

deguste

A alma é uma casa que anda

a alma é uma casa com telhado;

a alma é uma casa emparedada;

a alma é uma casa pré-fabricada

com criado-mudo, com cerca elétrica e com o porta-retrato de um sorriso congelado no tempo

a alma é uma casa com janelas à espera de um sol

a alma é uma casa à espera de uma lua

a alma é casa dependurada numa nuvem

é uma casa fechada por dentro, sem cheiro de bolinho de chuva, sem a chave perdida na rua.

a alma é uma casa que anda

a alma é um lar invisível de muitas outras almas

e a casa é o retrato que se tira quando estamos sozinhos

é aquele espelho quebrado, aquela fotografia que nem sabemos onde colocamos

é a luz que não acende, o chuveiro que pifa

a casa é a poeira dos móveis

é solidão encrustada na gordura da cozinha.

a casa é uma alma emparedada

é a cerca elétrica que nos prende e que nos isola

e enquanto ficamos debaixo de chuva, na rua

à procura da chave perdida

descobrimos que a casa é apenas aquilo que somos

sem planta ou projeto, sem uma varanda larga, sem risos ou testemunhas

a casa é apenas uma alma que anda

Poema do livro ‘Dois Passos de Degrau’, de Marival Correa

Fonte: Diário da Região

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