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Wakanda para sempre

Chadwick Boseman, ator, negro, levou às telas importantes personagens da cultura norte-americana.

No último final de semana, multiplicou-se rapidamente pelas redes sociais a notícia da morte do ator Chadwick Boseman, o astro de “Pantera Negra” no cinema. Vítima de câncer, Boseman faleceu aos 43 anos.

Refletir sobre a morte é sempre um desafio: a pouca idade, a tragédia de uma doença covarde e silenciosa, as narrativas que jamais acontecerão são algumas das poucas formas de pensar sobre a morte de Boseman, independente de sua carreira, daquilo que ele representa, de seu lugar de fala. Mas, neste episódio, há muito mais a ser dito. Chadwick Boseman, ator, negro, levou às telas importantes personagens da cultura norte-americana, tendo dado vida a Jackie Robinson, o primeiro jogador de beisebol negro a integrar a Liga Principal de Beisebol; a Thurgood Marshall, o primeiro juiz negro a chegar à Suprema Corte Americana; e também a James Brown, um dos mais influentes cantores americanos do século 20. Não bastasse a ousadia de interpretar personagens célebres da “vida real”, personagens que marcaram a vida da comunidade negra norte-americana, Chadwick Boseman foi além ao aceitar dar vida ao “Pantera Negra”, primeiro super-herói de ascendência africana criado em 1966 por uma editora mainstream de quadrinhos dos Estados Unidos. O que muitos não sabiam, e somente sua morte trouxe à tona, é que Chadwick Boseman, antes mesmo de começar as gravações do tão emblemático personagem dos quadrinhos, já era um herói na luta pela vida, transpondo as limitações que um câncer de cólon em estágio 3 – um dos mais graves, poderia lhe impor. E os resultados não poderiam ter sido melhores: após o sucesso de Pantera Negra no filme “Capitão América: Guerra Civil”, o herói negro ganhou sua própria película, que se tornaria um estrondoso sucesso de crítica e de público, com sete indicações ao Oscar – inclusive a de melhor filme, e mais de 1 bilhão de dólares em bilheteria. Ao dar vida a T’Challa, o rei de Wakanda, Boseman apresenta ao mundo uma utopia afro-futurista na qual futuro e passado convergem para o estabelecimento da nação mais avançada do mundo, tanto pela perspectiva social quanto pela perspectiva tecnológica; uma terra que, em sua história milenar, jamais foi invadida e, por isso, permaneceu inalterada, tornando-se uma sociedade pós-agrícola e tecnológica, que preserva a igualdade entre os gêneros. E, desse modo, Chadwick Boseman torna-se porta-voz dos ideais que permeiam Wakanda, esse reino da fantasia que, nos dias atuais, parece ser tristemente inalcançável: um mundo no qual o negro não é negligenciado e nem tampouco inferiorizado; um mundo em que se possa ver os negros livres de preconceitos, sendo socialmente percebidos como os indivíduos bem-sucedidos e capazes de serem os agentes de transformações sociais e tecnológicas que de fato são; um mundo em que o continente africano se apresenta sem traços de subdesenvolvimento e longe da fome e da miséria que ainda se fazem presentes em muitas de suas nações; e sobretudo, em um mundo em que episódios como o de George Floyd sejam impensáveis, inadmissíveis.

Chadwick Boseman, o verdadeiro super-herói escondido sob o manto do “Pantera Negra”, enfrentou bravamente seu pior inimigo, e entre sessões de quimioterapia e a batalha mortal que travava contra o câncer, protagonizou não apenas mais um filme de fantasia, mas erigiu seu importante legado, que traduz o ideal que guardava em seu coração: oferecer mais representatividade ao seu povo; permitir que a criança negra olhe para a TV e se reconheça no herói; propagar o conceito fundamental de valor à vida, deixando claro que todas elas importam, e que deve-se sempre seguir adiante, apesar de tudo.

Fonte: Diário da Região 

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