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A poética da violência

Governador Wilson Witzel exibe a expressão dos sonhos daqueles que clamam por um justiceiro, e não por justiça.

Na manhã de terça-feira os portais de notícias foram inundados com o caso do ônibus sequestrado na Ponte Rio-Niterói, no estado do Rio de Janeiro, no qual 39 passageiros foram feitos reféns. O desfecho da narrativa se deu quando, com disparos de membros do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), corpo de elite da polícia, o sequestrador foi morto ao descer do ônibus. Ali deveria ter acabado o horror. Infelizmente, não foi o que aconteceu.

Momentos depois, parecendo ter saído da sequência de uma famosa franquia hollywoodiana, o governador Wilson Witzel, advogado, ex-juiz e ex-fuzileiro naval, aparece no vídeo como a expressão dos sonhos daqueles que clamam por um justiceiro, e não por justiça. A cena é constrangedora. Desnecessária. A quem assiste, não restam dúvidas de que a violência está no mainstream. Uma enorme tristeza.

Todos sabemos que desde o anúncio dos resultados das últimas eleições, o Brasil vive um período de profundas mudanças. Porém, é necessário que haja serenidade – e um esforço estatal de pacificar o país, para que possamos seguir com nossas vidas e nossas rotinas, sem grandes sobressaltos. Para
pacificar, é necessário vontade e habilidade. Mas não é o que temos visto todos os dias nos noticiários e, mais que isso, não foi o que se viu no caso do sequestro na Ponte Rio-Niterói, com a chegada do governador, vindo dos céus, para celebrar a morte. Foi o oposto, na verdade.

Uma vez que o estado permite que a violência seja instaurada – e a incentiva com ações como a aterrissagem triunfante de Witzel, pode estar tomando um caminho perigoso, já que essa violência não mais poderá ser controlada. Muitos podem pensar: “Mas essa é a realidade daquela – e de muitas outras regiões, há anos”. Sim, é verdade, mas com uma enorme diferença: a cultura da violência não estava – até agora, nos gabinetes executivos, com o aparato do estado a seu dispor e, principalmente, com canais abertos para audiência de uma torcida ávida por celebrar a morte e a perpetuação da violência.

Talvez nosso povo nunca tenha visto tão de perto do conceito de Walter Benjamin (2012), para quem o estado de exceção em que vivemos é a regra, e a violência – e opressão, a ele inerente. Não, não estamos isentos da barbárie. Ao contrário, estamos cada vez mais próximos a ela.

Matéria completa – Diário da Região (21/08/2019)

 

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