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Fabrício Carpinejar inova ao lança livro, a começar pela ausência de título

Recheada de poemas curtos e inspirados, obra também não traz prefácio ou orelhas assinadas, visando instigar o leitor a ter a sua apreciação sem influência

Na capa do livro, preta, a ausência de título chama de pronto a atenção, embora o sobrenome do autor até esteja ali, presente – na verdade, fazendo uma espécie de composição “ton sur ton” com o fundo. “Carpinejar”. Quando o olhar recai ali, não restam dúvidas. Trata-se, claro, de um livro de Fabrício Carpinejar, o escritor gaúcho que já há algum tempo se tornou também um mineiro de coração, a ponto de esmiuçar tão bem algumas das características dos conterrâneos de sua cara-metade, Beatriz, em suas crônicas (publicadas no Magazine, quinzenalmente, aos sábados, e todos os domingos, no portal). 

Mas como assim, um novo livro de Carpinejar? Como não fomos avisados? E por que sem título? Bem, para obter respostas a essas e mais perguntas, só mesmo indo direto à fonte. E é ele que, do outro lado da linha, fornece os devidos esclarecimentos. Sim, foi tudo proposital. “Desta vez, o livro não tem título, não tem orelha, não tem prefácio… E os versos (por ele abarcados) também não têm título”, explica sobre o lançamento da editora Bertrand Brasil, que discretamente foi colocado nas prateleiras das livrarias no final do ano passado. “Não teve nem divulgação, nem release para a imprensa”, complementa.

Carpinejar relata que o objetivo foi de fato propor a seus leitores um caminho diferente daquele tradicional que baliza o lançamento de um autor. “Queria que o livro falasse por si. Como se fosse, digamos, um movimento anticomercial. Mesmo porque, quando o autor fica dando entrevistas, acaba, de alguma maneira, apontando os caminhos (referindo-se a um direcionamento da leitura). E eu quero que esse livro convença o leitor pela leitura, independentemente do autor. De certa forma, eu quis resgatar aquele artesanato do livro. Quis tomar esse caminho de exaltar a simplicidade”, frisa.

O caminho que ele enxergou para isso foi a poesia. “A gente está vivendo um mundo de aparências e de holofotes. De ostentação. E vejo a poesia como um antídoto a tudo isso”, explica. Nas 128 páginas da obra, os poemas aparecem apenas nas ímpares, e, como já dito, não trazem título. São versos curtos, como haicais. Neles, Fabrício Carpinejar volta a exibir sua maestria com as palavras, abordando temas ora prosaicos – como as moscas que voam em torno das frutas, o banho do cachorro e o borbulhar do café na boca –, ora de viés filosófico, como o destino dos sapatos que finalmente se moldam aos pés. 

Em alguns momentos, o foco recai sobre mazelas que, dado o largo tempo em que se fazem presentes na vida de tantos brasileiros, são por vezes até já naturalizadas. Como quando, ao revelar que vai almoçar as sobras da ceia de Natal, se dá conta de que a maioria se alimenta de restos todos os dias do ano. Há, também, pinceladas fugazes de humor, do que é exemplo a contemporização da esposa diante da semana desastrada que deixou como saldo dois copos e um prato quebrados. As reminiscências também ganham vez, como ao recordar os colegas que se contentavam com o álcool do mimeógrafo, quando ele, traquinas que só, podia se escorar no balcão do sapateiro, já que era incumbido de levar os saltos da mãe para o conserto. E, ali, deixar o olfato se conduzir pelo cheiro da cola.

Claro que a conversa não prescindiria da famosa gargalhada de Carpinejar. E ele a solta ao resumir: “É um livro estranho”, diverte-se. Depois, assume ares mais sérios. “Não é um livro que demande uma entrevista. É como se fosse uma correspondência”.

Um box para chamar de seu
Se o livro sem título se apropria do posto do lançamento mais atípico de sua trajetória nas letras, Carpinejar conta que nem bem começou o ano e já está envolvido com outra novidade. Esta, sim, com título, release, prefácio e que tais. Trata-se de um box contendo seus cinco primeiros livros: “As Solas do Sol” (1998), “Um Terno de Pássaros ao Sul” (2000), “Terceira Sede: Elegias” (2001), “Biografia de uma Árvore” (2002) – “sobre uma árvore que demite Deus por justa causa” – e “Cinco Marias” (2004), “no qual, como no jogo, você não sabe quem está falando”. “Eles foram publicados separadamente; agora os reuni porque, juntos, formam um romance em versos, sempre com dois personagens, um, o Avalor, que significa sem valor, e o seu pai. Foi uma maneira de trazer essa surpresa do romance. As pessoas leram os livros isoladamente, agora, com o box, podem ter a ideia de um conjunto que até então era secreto”. Carpinejar ressalta que se trata de uma edição especial, com tiragem limitada, e vendida apenas pela Amazon.

Sem título – Fabrício Carpinejar
Editora Bertrand Brasil
128 páginas
R$ 29,90

Box dos cinco primeiros livros de Carpinejar
R$ 89,90
Venda exclusiva pela Amazon

Fonte: O Tempo

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