Loading...

‘As editoras terão que se reinventar ou desaparecerão’, diz Leonardo Tonus, escritor e professor da Sorbonne

Acadêmico promove encontro literário virtual com obras de autores brasileiros e de outros países, enquanto prepara dois livros na quarentena, em Paris

RIO — A Organização Mundial de Saúde anunciou que não sabe dizer quando o vírus irá desaparecer. No dia que começou a quarentena na França, 13 de março, tudo já estaria resolvido, segundo imaginou o professor de literatura brasileira na Sorbonne, o escritor Leonardo Tonus.

— Estávamos a uma semana antes das férias da universidade e, com o passar dos dias fui dando conta que os próprios estudantes ficariam isolados por bastante tempo. Então tive a ideia do projeto “Sacadas literárias”, que é compartilhar poesias da janela, estas janela metafóricas, estendendo a brasileiros. A ideia é toda semana fazer uma live pelo Instagram e Facebook com suporte para que eles continuem estudando tendo em vista as provas do Enem. Literatura em casa para estudantes, sobretudo os do ensino público. Vamos seguir até o fim do ano — conta.

Neste fim de semana (dias 20 e 21, às 11h), ele conduz o encontro virtual “Literatura em casa”, cujo tema é o “fenômeno do biografismo e das chamadas escritas do eu (autobiografias e autoficções)”, com a participação da professora de literatura luso-brasileira Luciana Namorato, da Indiana University. Serão lidos e comentados, entre outros, trechos  de obras de Conceição Evaristo, João Carrascoza, Geovani Martins, Tiago Ferro, Tatiana Salem Levy, Cristovão Tezza e Clarice Lispector. Sábado, no Facebook (@LeonardoTonus) e domingo no Instagram (@leonardotonus).

Nascido em São paulo e há 32 anos radicado em Paris, Tonus também é tradutor e criador do festival Printemps Littéraire Brésilien, que aconteceria dias depois do início do confinamento francês, não fosse suspenso por causa da pandemia – o governo francês anunciou que as medidas de urgência sanitária vão se prolongar até o fim de julho e as aulas na universidades só voltam em setembro.

Na quarentena, além de contar histórias e declamar poesia na internet, ele se debruça sobre dois projetos iniciados em 2018.  Um livro com situações de visibilidade (“ou invisibilidade”) de refugiados na produção artística e literária brasileira contemporânea e um outro sobre literatura e migrações, tema da sua tese de doutorado. A previsão é publicar ambos no ano que vem.

— Em 2021 iremos celebrar o centenário do primeiro curso de literatura brasileira na França — diz. — A história destes meus dois projetos começa numa escrita íntima e diária, um jornal particular, o confinamento exacerbou isto. A situação não mais do exílio, mas de “inxílio”, curiosamente acabamos nos expatriando para dentro dos nosso espaços doméstico se para dentro de nós mesmos — reforça Tonus que, por e-mail, conversou com o GLOBO sobre literatura brasileira na França, deslocamentos migratórios, governo Bolsonaro e saúde do mercado editorial pós-pandemia.

Como é a vida de um professor de literatura brasileira no exterior em tempos de isolamento?

Até poucos anos atrás, a situação de um “brasilianista” (pesquisador  sobre o Brasil mas atuando fora do país) era a de um total isolamento. As novas tecnologias e o processo de internacionalização da produção científica brasileira alteraram consideravelmente este quadro. Desde 2007 participo de um grupo de estudos em literatura brasileira contemporânea que discute a relação entre literatura e sociedade. Foi assim que, em 2012, realizamos, em Paris,  o 1° Simpósio Internacional de literatura brasileira contemporânea que, na altura, ainda contou apoio do governo brasileiro e com a presença dos escritores Luiz Ruffato e Elvira Vigna (1947-2017).

Qual é o olhar sobre a realidade brasileira estando longe?

De completa impotência. O cenário atual é desolador. E, nós que residimos fora, não sabemos como agir.  Como ajudar um país à beira de seu extermínio por conta de um Estado irresponsável ? Fazemos o que podemos e o que está ao nosso alcance. No meu caso, busco fortalecer minhas redes de apoio direcionadas a pessoas em situação de perigo econômico, social e político.

Que pergunta você mais se faz isolado?

Sobre a estranheza para a qual estamos temos tendo nos confrontados, a estranheza de nós mesmos.

Em que lugar cabe sua pesquisa sobre imigração neste contexto de confinamento?

O tema percorre o conjunto da produção literária nacional desde meados do século XIX.  A permanente presença do imigrante na literatura brasileira e sua capacidade de se moldar às transformações sócio-econômicas e culturais do país é problemática. A figura literária do imigrante sofreu (e continua a sofrer) um processo de alegorização que, para além de instaurar a distância entre seu significado e significante, priva-a de concretude e da capacidade  de expressar  um conteúdo que não seja aquele concedido pelo olhar do momento em que ela surge. Adriana Lisboa, Marcelo Maluf e Julián Fuks são autores emblemáticos.

De que forma os deslocamentos contribuem para a produção literária?

A história da humanidade é uma história de deslocamentos, sobretudo no campo das artes. Para que haja criação é necessário deslocar-se e sair do lugar-comum, da chamada zona de conforto. Esta é a história das grandes correntes artísticas e, sobretudo, das vanguardas. Vários de meus poemas abordam a trágica situação dos refugiados pelo mundo. Em outros termos, transformar o meu lugar de fala num lugar da falha.

O que você descobriu sobre o assunto?

A presença e a representação de grupos (i)migrantes na literatura brasileira. Esta pesquisa levou a me debruçar sobre autores clássicos, modernos e contemporâneos de nossa literatura, como Aluísio Azevedo, Graça Aranha, Oswald de Andradre, Nélia Piñon, Samuel Rawet, Milton Hatoum e mais recentemente, Julián Fuks, Marcelo Maluf e Adriana Lisboa. Se a imigração constitui um dos sustentáculos de nossa narrativa nacional e, portanto, identitária, é curioso observar certo silenciamento em relação à situação de migrantes e refugiados na produção artística nacional contemporânea.

A relação entre a França e o Brasil nestes 30 anos que você mora aí mudou?

Descobri o quanto a França e o Brasil ainda se desconhecem apesar de uma história que nos aproxima desde o século XVI. Ambos os países mantêm uma imagem internacionalmente forte e exótica o que acaba por afastá-los um do outro.

Como foram construídas as pontes entre estes dois países?

A ponte entre as culturas brasileiras e francesas se fortaleceu ao longo do século XIX por meio da atuação de dois grandes brasilianistas franceses : Jean-Baptiste Debret e Jean-Ferdinand Denis. O primeiro integra a Missão Artística Francesa em 1817 e funda, no Rio de Janeiro, uma academia de Artes e Ofícios, mais tarde a Academia Imperial de Belas Artes, onde leciona. O segundo, grande viajante, foi escritor e o primeiro especialista em História do Brasil na França. Posteriormente ele se tornou administrador da Biblioteca de Santa Genoveva em Paris que, até hoje, conserva um acervo importantíssimo da história e da literatura brasileiras. Daí vieram as relações entre a vanguarda francesa e os modernistas brasileiros; a atuação de professores franceses na fundação da Universidade de São Paulo (USP); o projeto Brasil-França e vice-versa e o Salão do Livro de Paris.

O que da literatura do Brasil interessa aos estudantes franceses?

Observo, nos últimos anos, uma mudança significativa no interesse dos franceses por nossa literatura. Jorge Amado e José Mauro de Vasconcelos continuam sendo os nossos maiores sucessos de público por aqui. O primeiro por ter sua obra quase toda traduzida para o francês. O segundo pelo curioso fato de ter sido, com o romance “O meu pé de laranja lima” , leitura obrigatória no ensino médio francês. Hoje outros nomes despontam no cenário da literatura lusófona traduzida para o francês, como Milton Hatoum, Julián Fuks e Djamila Ribeiro.

Há um esforço para traduzir a produção literária brasileira na França? 

Este esforço institucional existiu até poucos anos atrás. Nasceu na década de 1990 quando, à imagem de outro países, o Brasil investiu em sua diplomacia cultural implementando uma série de medidas para apoiar e patrocinar a exportação de seus bens culturais. A partir de 1994, o país passou a investir também em sua representatividade externa através de uma presença maciça em eventos literários internacionais. Entre 1994 e 2015, o Brasil foi convidado de honra em mais de 15 feiras e encontros internacionais, dentre os quais, o Salão do Livro de Frankfurt (1994 e 2013 ), de Bolonha (2012), de Goteburg (2014) e de Paris (1998 e 2015). Tais investimentos tiveram grande impacto na tradução e na publicação de obras brasileiras no exterior. Em breve, por exemplo, vai sair o primeiro livro de Joca Reiners Terron (escritor brasileiro) em francês.

Você escreve poemas em francês?

Muitos de meus textos nascem primeiro em francês para em seguida passarem por um curioso, e muitas vezes doloroso, processo de auto tradução.

Como doloroso?

Mais do que uma traição, concebo a tradução como ponte e passagem. Traduzir é transladar. É ter a possibilidade de descobrir outros mundos. Nada mais fascinante do que sermos outro a partir de nós mesmos, não ?

De 2014 quando foi criado até hoje, quais as principais mudanças do festival literário criado por você na França?

A  mais importante de todas as mudanças do Printemps Littéraire Brésilien diz respeito à sua internacionalização. Em 2016, tornou-se um itinerante e acontece também em países europeus e da América do Norte. Em 2020,  pretendíamos estender as nossas atividades até o Brasil e a África, mas, infelizmente, tivemos de suspender.

Quem são os grandes poetas franceses da atualidade?

É sempre difícil, afinal, são mais 400 novos títulos publicados todos os anos. No entanto, observo na produção atual o retorno do cotidiano enquanto chave interpretativa do mundo. Esta temática e postura encontram-se nas recentes publicações de Marie Darrieussecq ou dos laureados do Prêmio Goncourt.

Como vai ficar a saúde das grandes e pequenas editoras no pós-pandemia?

Corremos o risco de desabar. No mês passado, a França assinou uma série de medidas emergenciais no sentindo de ajudar seus atores da cultura, e sobretudo do livro. A cultura constitui um elo essencial da economia francesa, o que não é, infelizmente o caso do Brasil cujo atual governo a despreza. As editoras no Brasil terão de se reinventar e, em particular, repensar o seu modelo de negócios ou desaparecerão por completo. O sucesso das lives nas redes sociais talvez seja um caminho a ser levando em conta no sentido de assegurar visibilidade e estabelecer um canal mais direto com os atores do livro.

Diante desta situação, de desprestígio, qual deve ser o futuro da literatura brasileira?

Teremos de nos reinventar ou não sobreviveremos. Diante do caos econômico e sanitário, que sentido faz ainda faz discutir políticas de internacionalização da literatura brasileira, as dificuldade sujeito escritural à luz do projeto da pós-modernidade ou as aventuras das desterritorializações ? Hoje, muitos dos nossos escritores já não conseguem sequer pagar sequer suas contas de água. Os recursos voltados para a literatura estão sumindo. O nosso meio cultural (e literário) terá de se mostrar à altura de sua humanidade e também de sua capacidade em ser solidário.

Como o Brasil da era Bolsonaro é mostrado aos franceses? 

Como todo objeto de estudo sempre foi e deve ser estudado no âmbito acadêmico, criticamente. O espaço universitário é na França um espaço de liberdade de pensamento apesar dos defensores da absurda teoria da escola sem partido que também  ganha terreno por aqui. Mas com a chegada de Bolsonaro observo uma mudança radical nos temas abordados sobre Brasil na pesquisa no ensino. Eu mesmo tenho focado minhas aulas em questões vinculadas à atualidade : racismo, feminismo, gênero, situação das populações ameríndias, etc. Busco assim refletir conjuntamente com meus estudantes franceses acerca da emergência de discursos totalitários pelo mundo.  Neste sentido, o Brasil se tornou, infelizmente, um caso de estudo bastante  interessante.

Fonte: O Globo

‘As editoras terão que se reinventar ou desaparecerão’, diz Leonardo Tonus, escritor e professor da Sorbonne - Abresc |