Onde o horror fez morada - ABRESC

Onde o horror fez morada

No dia de hoje, entidades de todo o mundo celebraram o Dia Internacional da Lembrança do Holocausto, instituído em 2005 pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas e que faz referência à libertação do campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia, empreendida por tropas soviéticas no dia 27 de janeiro de 1945.

Auschwitz e Auschwitz II – também conhecidos como Auschwitz-Birkenau, talvez tenham sido os campos mais famosos, sobretudo por abrigarem as câmaras de gás e os fornos crematórios, além de serem os maiores em extensão territorial.

Há quem diga que o Exército Vermelho não estava preparado para libertar Auschwitz. A jornalista Clara Barata, em artigo veiculado pelo jornal “Publico”, de Portugal, revelou as memórias do tenente Vasili Gromadski, da 100.ª Divisão de Atiradores, que participava na ofensiva do Vístula-Oder, cuja missão era chegar a Berlim no fim de abril de 1945: “Demos por acaso com o campo de extermínio”. “Nos mapas [das tropas soviéticas], de antes da guerra, nem sequer constava este extenso campo de morte […] do regime nazista”.

Devido à enorme presença de minha avó Leonor em minha vida, conheci desde cedo o papel dos judeus na mitologia hebraico-cristã, pois religiosa que era, não nos permitia distanciamento da igreja e dos ensinamentos bíblicos. Conforme crescia e amadurecia, sempre voltava ao tema, seja por caminhos religiosos, seja pela sétima arte: no início dos anos 1990, quando Steven Spielberg trouxe às telas “A Lista de Schindler” (1993), não pude compreender bem a comoção, o significado daquilo tudo; anos mais tarde, “O Pianista” (2003) sensibilizou-me e deixou-me inquieto por uma razão: como seria possível o “judeu de estimação”, que pela habilidade ao piano, foi capaz de sensibilizar o oficial nazista, e manter-se vivo.

E assim, estudando, dedici me encontrar com a história daquelas pessoas, e sempre que imaginava minha visita à Auschwitz, pensava no frio que fazia naquele lugar, no quanto as pessoas demoravam para chegar lá, no quanto a ideia que alguns livros passam de os campos terem sido construídos distante de tudo poderia ou não ser confirmada e, uma a uma, essas perguntas foram sendo respondidas.

Saímos da Cracóvia no trem das seis da manhã, antes do amanhecer, e fazia muito frio. A primeira etapa da viagem estaria concluída após cerca de duas horas e um belo nascer do sol: estávamos, finalmente em Oświęcim. Ao chegarmos naquela pequena estação de uma cidade típica do interior, com apenas 40 mil habitantes, pudemos sentir que aquele tipo de turismo era muito diferente do que já havíamos feito: sair de um grande centro e ir a uma cidade medieval como Toledo, ou a Versailles ou Liverpool, é bem diferente de ir ao encontro de uma face escura da história da humanidade como o Holocausto.

O primeiro impacto ao chegarmos ao complexo onde ficam os campos de Auschwitz-Birkenau, é o imenso portão com o letreiro “Arbeit macht frei” que, em alemão, significa “o trabalho liberta”, clara menção ao fantasioso propósito de ser Auschwitz um campo de trabalho, e não um campo de extermínio, como revela a história. Estar ali é doloroso, e logo que cruzamos aquele portão, Débora – minha esposa – e eu fomos tomados pela sensação de angústia ao pensarmos nos horrores vividos por seres humanos, como nós, cujo crime foi, tão somente, pertencer à uma etnia perseguida. A nós, ali, sobrou apenas o silêncio.

Em cada um dos muitos prédios, mostras e explicações sobre como o Holocausto se deu: metodologias, vasto registro fotográfico, explicações de teóricos renomados e de depoimentos de sobreviventes. Mas o que mais chama a atenção é mesmo o que aqueles prédios têm a dizer: em Auschwitz entramos no prédio em que funcionaram câmara de gás e crematório, e a sensação de náusea, de nojo de nós mesmos, nos invadiu. Débora saiu chorando e não viu os detalhes nas paredes: os arranhões daqueles que tentavam, em vão, fugir dali.

A chegada a Birkenau nos coloca em um cenário quase fantasma, pois enquanto a primeira parte dos campos é bastante movimentada, ali vimos somente uns poucos turistas. A fachada imponente, quase que infinitamente reproduzida em materiais didáticos, emoldura os trilhos de trem, já desativados; o lugar gigantesco, com construções de madeira e cercas outrora eletrificadas, nos força abandonar a abstração do tema. Naquele chão milhões de narrativas foram interrompidas; foi ali que o mal fez morada na terra.

Andar por aquelas estradas calçadas com pequenas pedras, entrar nos prédios de alojamento e ver que aquelas pessoas nada tinham a não ser o aquecimento mínimo suficiente para continuarem vivas; encontrar um vagão de carga usado à época para transporte de seres humanos que ao chegarem em seu último endereço perderiam roupas, pertences, cabelos; que ali perderiam identidade e dignidade, sendo desumanizados e tornando-se criaturas macilentas incapazes de se reconhecer no espelho. Impossível segurar a emoção, a comoção e as lágrimas. Impossível deixar de aplaudir iniciativas ao redor do mundo para que esse episódio jamais se repita.

O ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, ao proferir o discurso de inauguração do Museu Americano Memorial do Holocausto, localizado em Washington, em 1993, faz uma importante reflexão: “este museu não é apenas para os mortos, nem mesmo para os sobreviventes que foram, de maneira tão bela, representados; talvez seja sobretudo para aqueles de nós que não estavam lá. Aprender as lições, aprofundar nossas memórias e nossa humanidade, e transmitir essas lições de geração em geração. […] [pois o] Holocausto lembra-nos sempre que o conhecimento separado dos valores só pode servir para aprofundar o pesadelo humano; que uma cabeça sem coração não é humanidade”.

O antissemitismo configura manifestação de preconceito cultural, étnico e religioso contra o povo judeu e pode ser percebida em situações de ódio e discriminação contra indivíduos e comunidades de origem judaica, sejam essas manifestações realizadas por um único homem, por políticas públicas ou por ataques militares. Para Roberto Wistrich (2012), “De todos os tipos de ódio, […] o antissemitismo é o mais antigo. Remonta a 2 mil anos, a idade da diáspora judaica.”.

De acordo com a teórica Lillian Kremer (2003), cerca de 1,5 milhões de pessoas foram assassinadas nas câmaras de gás de Auschwitz, além de milhares de outros mortos em sessões de tortura, experimentos médicos atribuídos ao lendário médico e oficial da Schutzstaffel (SS) Joseph Mengele, execuções ou “marchas da morte”. Muitos dos judeus mortos ali chegaram aos campos de extermínio entre o segundo semestre de 1942 e o primeiro semestre de 1943, quando Hitler e seus conselheiros já sabiam que a guerra “política” estava perdida. Diante disso, buscaram sair vitoriosos da guerra “étnica”, – a guerra dentro da guerra, e ordenaram que as execuções fossem intensificadas.

Em outubro de 2017, uma carta localizada em 1980 em uma floresta ao lado de Auschwitz-Birkenau e atribuída a Marcel Nadjari, judeu de origem grega, foi publicamente divulgada e revela a miséria que “a mente humana não pode imaginar”. Somente recentemente processado e codificado, o texto trata das atrocidades realizadas sob jugo nazista: prisioneiros recebiam ordens para execução de tarefas cotidianas que eram refutadas pelos militares alemães. Chamado de “Sonderkommando”, esse grupo tinha dentre suas atribuições, enterrar os corpos dos executados e limpar as câmaras de gás: “Após meia hora, nós abrimos as portas e o nosso trabalho começa”, descreve Nadjari sobre a sua função, que era a de carregar os corpos da câmara de gás para os fornos de cremação, e detalha: [onde] “um ser humano se transforma em cerca de 640 gramas de cinzas”.

Elie Wiesel, escritor sobrevivente de Auschwitz e laureado em 1986 pelo Prêmio Nobel da Paz, justifica a importância de manter acesa a lembrança dos horrores de Auschwitz: “Claro que poderíamos tentar esquecer o passado. Por que não? Não é natural que um ser humano reprima o que lhe causa dor, o que lhe causa vergonha? Como o corpo, a memória protege suas feridas. Quando o dia rompe depois de uma noite sem dormir, os fantasmas de alguém precisam se retirar; os mortos são mandados de volta para suas sepulturas. Mas, pela primeira vez na história, não pudemos enterrar nossos mortos. Nós carregamos seus túmulos dentro de nós mesmos. Para nós, esquecer nunca foi uma opção. Lembrar é um ato nobre e necessário.”.

Aos que sobreviveram ou foram vencidos pelos horrores de Auschwitz, nosso respeito e reverência.

Matéria completa – Diário da Região (27/01/2019)

João Paulo Vani

João Paulo Vani - ABRESC

Presidente da Academia Brasileira de Escritores. Mestre e Doutor em Teoria Literária (Unesp) e Especialista em Administração (MBA) com ênfase em Comunicação e Marketing. Coordenador, em âmbito nacional, do programa “Brazilian Studies” da University of Louisville, nos Estados Unidos. Coordenador de Pós-graduação da Anhanguera Educacional – unidade São José do Rio Preto.